sexta-feira, 25 de junho de 2010

A estrada da vida

Hoje, acredito na beleza do ridículo, do incompleto, do inadequado. Super-homem não existe e se existir deve ser bastante chato. Acredito no adulto que mesmo depois de perdas ainda sorri e brinca.

Atriz Giulietta Masina

domingo, 16 de maio de 2010

Ainda estou nas nuvens

Finalmente, estou me deixando conduzir pelo vento. Às vezes me sinto etérea.


Sem Palavras

Ontem fui uma dessas andorinhas.

sábado, 3 de abril de 2010

O retorno

Marcel Marceau


Voltei!!!

Neste período realizei um curta-metragem: http://curtaolhosdegato.blogspot.com/
E como que embalada por uma força maior, mergulho no estudo do clown.
Para ajudar no parto de Alecrim Scarlett, minha palhacinha, entro em processo de montagem com O Pequeno Príncipe - o desafio é largar o casaco da vaidade e deixar que o vento me conduza.

Estou trocando de pele.


segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Conversas da Távola, parte 3


“O teatro realizado com seriedade e ética sempre levará à transformação social”, argumenta Stanislavski. “Então o senhor aponta para um teatro épico, Sr. Brecht?”

“Narrativo. Um fórum de discussões das complicadas relações humanas dentro do sistema capitalista.”

“O ator cria o personagem como extensão de sua própria personalidade”, diz, inserindo-se na conversa, o diretor polonês Jerzy Grotowski, com a inscrição Encenador (1933- 1999).
“Em meu teatro-laboratório, trabalhava com um pequeno grupo de atores em tempo integral e exigia deles absoluta concentração na pesquisa. Penso o ator como possibilidade de tensão levada ao extremo. O ator deve pensar com o corpo.”

“Como?”, perguntam os Srs. Stanislavski, Meyerhold, Gordon Craig e Brecht.

“Através do trabalho corporal.”

“Biomecânica”, diz Meyerhold.

“Então”, continua Grotowski, “através do trabalho corporal e de sua exaustão, que leva ao transe, o ator transcende suas possibilidades psíquicas e físicas, atingindo um ponto em que desaprende para atingir o ato criador. No despojamento físico e psíquico, o ator elimina suas resistências até atingir um impulso puro. Uma autopenetração que revela e sacrifica o mais íntimo de si mesmo.”

“A dança!”, grita o homem primitivo.

Todos os doze cavalheiros sorriem, com carinho, para o homem primitivo.

“Percorrido o processo de pesquisa física e psíquica, encontraremos o teatro pobre: sem cenários, materiais cênicos, efeitos técnicos, iluminação, maquiagem, ou seja, o teatro em sua essência, contando com o corpo e seu espaço, apto ao som, ritmo e movimento. Este teatro deve ser voltado a um público específico, qualitativo e não quantitativo. Um grupo pequeno para que haja uma integração em forma de culto”, finaliza o Sr. Grotowski.

“Santificação!”, clama o homem primitivo.

“Levei às últimas consequências as ações físicas elaboradas por você, Stan.”

“No meu livro póstumo ‘A composição do personagem’, há o cuidado de sistematizar o treinamento técnico exterior do comediante através de recursos físicos ligados ao trabalho vocal e corporal. Também em ‘A criação de um papel’, tive a oportunidade de aplicar meu método em comédia, drama e tragédia”, diz Stanislavski.

“Sim, e quantos não disseram que o seu método só se aplicaria ao teatro sério?... O conhecimento é tudo”, diz Brecht.

“O ator deve seguir ao abandono das forças instintivas para ampliar os limites da realidade”, reflete em voz alta o francês Antonin Artaud, com a inscrição Ator, encenador, poeta, dramaturgo (1896-1948). “O espetáculo deve salvar o homem. O ator como um atleta afetivo, através do sopro e da respiração, penetra o corpo do personagem, dando-lhe vida. O ator não deve temer o ridículo de assumir gestos patéticos, o grito é seu veículo mais expressivo. Através de sons inabituais e inumanos, nos aproximamos de estados emocionais elementares.” E, olhando para o homem primitivo à mesa, continua: “Na retomada do homem primitivo chego à essência teatral.”

“Teatro da Crueldade”, dizem juntos o inglês Peter Brook, Diretor de teatro e cinema (1925-), e o italiano Eugenio Barba, Diretor de teatro (1936-), ambos influenciados pela teoria de Artaud. A eles junta-se o americano Joseph Chaikin, Encenador e dramaturgo (1935-2003).
“O teatro é um encontro entre o ator e o espectador, assim como a transformação instantânea de um personagem noutro”, diz Chaikin.

“Aproveito os exercícios da biomecânica, mesmo os mais perigosos. O importante não é a execução do trabalho físico, mas as motivações e os impulsos que levam o corpo a reagir de determinada forma. Gritos e descontrole físicos não são criativos, pois não surgem da disciplina de pesquisa”, argumenta Eugenio Barba. Olhando para o Sr. Grotowski, acrescenta: “Admiro e utilizo a ideia do teatro pobre.”

“Gosto de suas ideias, Artaud!”, diz Peter Brook.

E continua Peter Brook: “Busco em minha pesquisa uma linguagem de sons e gritos que alcancem uma palavra-grito de impacto integrada ao movimento corporal.” Enquanto fala, olha para Artaud. “Você, Artaud, influenciou-me fortemente na utilização de cores expressivas em seus exercícios e espetáculos. Com isso, com elementos de violência e crueldade, busquei estabelecer novas relações entre ator-autor e público. Sempre busquei reformular os moldes verbais de meus atores, como, por exemplo, em inúmeras encenações shakespearianas, e em uma criação coletiva sobre a Guerra do Vietnã.”

“Ah, estudei e experimentei muito de vocês, Stan e Brecht”, finaliza Brook.

“Huumm, o ator pode ser um não-ator: um estudante, um operário, qualquer pessoa que queira desentorpecer o corpo alienado pelo cotidiano de uma sociedade capitalista. O ato de se ver em ação ou de interpretar o outro é próprio do ser humano. Através do sistema coringa, o ator mescla vários personagens, ora trabalhando a empatia stanislavskiana, ora quebrando a continuidade da ação, como no seu teatro épico, Brecht.”

Brecht olha para seu novo interlocutor, interessado.

“O Teatro do Oprimido chama o espectador à atividade cênica, tornando-o protagonista de um teatro que deve ser interpretado socialmente. Um teatro dialético. O ator retorna às origens quando torna seu espetáculo um ritual, onde o espectador-ator comunga com ele, o mesmo processo. Todos os seres humanos são atores, mas alguns profissionalizam-se”, diz o brasileiro Augusto Boal, inscrição Encenador, dramaturgo e ensaísta (1931-2009).

Enquanto a conversa na távola chega ao fim, o homem primitivo, travestido de xamã, dança mascarado ao redor da mesa.

terça-feira, 28 de julho de 2009

Conversas da Távola, parte 2



“Concordo com Meyerhold”, diz o inglês Edward Gordon Craig, com a inscrição Diretor e cenógrafo (1872-1967) na camisa preta que veste. “A emoção destrói o ator, a identificação gera confusão e erro. Proponho o ator como uma super-marionete, que através do movimento domina a emoção, tornando-se mais visual e menos sonoro, pois acredito ser a voz muito enfadonha.” E, olhando para o homem primitivo, diz-lhe sorrindo: “Uma marionete, símbolo da divindade.”

“Acho que o ator não deve se apoiar no transe hipnótico do naturalismo psicológico; o ator deve direcionar-se pelo que é cerebral e litúrgico. O público não deve ser envolvido emocionalmente”, argumenta o alemão Bertolt Brecht, com a inscrição Dramaturgo, poeta e encenador (1898-1956), também vestido de preto.

“Sim, com certeza! A plateia não deve ser envolvida emocionalmente!”, exclamam, com certa ansiedade, os Srs. Meyerhold e Gordon Craig.

“Continuando: proponho uma representação mais consciente do ator através do gestus, levando o público a entender a situação cênica de modo mais racional.”

“Como?”, perguntam os três senhores, Stanislavski, Meyerhold e Gordon Craig.

“Na encenação teatral, deverá ocorrer uma demonstração dos acontecimentos através do ator narrando e relatando os fatos, entre uma linguagem falada e cantada. Já a leitura cênica do personagem e da história deverá ser realizada com espanto e crítica pelo ator, antes de memorizar a história, podendo avaliar o desenrolar dos fatos.”

“Posso continuar?”, pergunta Brecht. Todos à mesa, os doze cavalheiros mais o homem primitivo, respondem que sim.

“O ator deve desenvolver uma interpretação expositiva, lúcida e didática, relatando ideias e opções de comportamento mais do que sentimentos. Um efeito de distanciamento, a partir do ator que deverá estudar seu personagem de forma mais científica, gerando no público um estranhamento para que o acompanhe, sem envolvimento emocional, mas de forma crítica: social e artística. O distanciamento no público só poderá ocorrer através do distanciamento responsável do ator por meio da observação de si próprio e reprodução de atitudes cênicas recorrendo a símbolos. Um ator com função de agente de transformação social e histórica.”

segunda-feira, 29 de junho de 2009

Conversas da Távola, parte 1


Sentados ao redor de uma távola redonda, dez respeitáveis homens de teatro conversam sobre o ofício ao qual dedicaram suas vidas. Além deles, ali está também o homem primitivo. A távola redonda encontra-se em um espaço dito cênico, em uma cidade localizada no espaço e no tempo da cronologia histórica, onde vivos e mortos têm a oportunidade de encontrar-se para um “bate-papo”.
A mesa não possui cabeceira. Portanto, os dez homens de teatro, mais o homem primitivo, conversam em uma perspectiva em que todos têm visão para todos.


O primeiro homem a falar, um russo chamado Constantin Stanislavski, tem a inscrição Ator, encenador e teórico teatral (1863-1938) estampada em branco na camisa preta que veste.


“A criatividade do ator deve ser estimulada por uma série de motivações técnicas que despertem conscientemente o inconsciente para uma criação superorgânica, superconsciente. Deve-se estimular o trabalho do ator sobre si mesmo e o trabalho do ator sobre o personagem.”


Um segundo homem, também russo, chamado Vsévolod Meyerhold, com a inscrição Ator, encenador e teórico teatral (1874-1942) estampada em uma camisa preta, responde-lhe: “Stan, ator é movimento. Rejeito psicologismo e realismo sociológico.”


“Mas, Meyerhold! O ator deve reconstruir minuciosamente a psicologia do personagem. O ator deverá, diariamente, exercitar-se na prática da observação de si próprio e do outro, como seres humanos que são, para como personagem colocar-se em situação d...”


O homem primitivo, nu e sem qualquer inscrição, pergunta pensativo: “Ator religioso?”


“...colocar-se em situação de a fim de alcançar uma realidade cênica mesmo que tenha de recorrer ao externo e aos meios físicos para alcançar a verdade interior do personagem. A fé cênica”, continua o Sr. Stanislavski, exaltado em sua observação.


“Ato religioso!”, pensa o homem primitivo em voz alta.


“Stan, Stan, Stan. A ação do ator deve ser mais teatral e menos humanizada. O movimento apresentado através da expressão corporal e da mímica é mais revelador do que palavras. O ator é como uma marionete que dança, canta, faz acrobacias e (nunca) esquece que está representando frente ao público.”


“Essência?”, pergunta o homem primitivo. Meyerhold lhe sorri, enquanto olha para Stanislavski com ar vitorioso.


“Destruir a quarta parede que há entre o ator e o público?”, pergunta Stanislavski. “E a concentração do ator em cena? Uma vez vi o ator italiano Tommaso Salvini interpretando ‘Otelo’, de William Shakespeare, o que marcou-me profundamente. Ouvi dele, certa vez, que o ator deve trabalhar uma total desconcentração muscular nos ensaios e antes de entrar em cena; e uma concentração da atenção quando estiver no palco e nos ensaios. Desconcentração muscular e concentração mental.”