sábado, 3 de abril de 2010

O retorno

Marcel Marceau


Voltei!!!

Neste período realizei um curta-metragem: http://curtaolhosdegato.blogspot.com/
E como que embalada por uma força maior, mergulho no estudo do clown.
Para ajudar no parto de Alecrim Scarlett, minha palhacinha, entro em processo de montagem com O Pequeno Príncipe - o desafio é largar o casaco da vaidade e deixar que o vento me conduza.

Estou trocando de pele.


segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Conversas da Távola, parte 3


“O teatro realizado com seriedade e ética sempre levará à transformação social”, argumenta Stanislavski. “Então o senhor aponta para um teatro épico, Sr. Brecht?”

“Narrativo. Um fórum de discussões das complicadas relações humanas dentro do sistema capitalista.”

“O ator cria o personagem como extensão de sua própria personalidade”, diz, inserindo-se na conversa, o diretor polonês Jerzy Grotowski, com a inscrição Encenador (1933- 1999).
“Em meu teatro-laboratório, trabalhava com um pequeno grupo de atores em tempo integral e exigia deles absoluta concentração na pesquisa. Penso o ator como possibilidade de tensão levada ao extremo. O ator deve pensar com o corpo.”

“Como?”, perguntam os Srs. Stanislavski, Meyerhold, Gordon Craig e Brecht.

“Através do trabalho corporal.”

“Biomecânica”, diz Meyerhold.

“Então”, continua Grotowski, “através do trabalho corporal e de sua exaustão, que leva ao transe, o ator transcende suas possibilidades psíquicas e físicas, atingindo um ponto em que desaprende para atingir o ato criador. No despojamento físico e psíquico, o ator elimina suas resistências até atingir um impulso puro. Uma autopenetração que revela e sacrifica o mais íntimo de si mesmo.”

“A dança!”, grita o homem primitivo.

Todos os doze cavalheiros sorriem, com carinho, para o homem primitivo.

“Percorrido o processo de pesquisa física e psíquica, encontraremos o teatro pobre: sem cenários, materiais cênicos, efeitos técnicos, iluminação, maquiagem, ou seja, o teatro em sua essência, contando com o corpo e seu espaço, apto ao som, ritmo e movimento. Este teatro deve ser voltado a um público específico, qualitativo e não quantitativo. Um grupo pequeno para que haja uma integração em forma de culto”, finaliza o Sr. Grotowski.

“Santificação!”, clama o homem primitivo.

“Levei às últimas consequências as ações físicas elaboradas por você, Stan.”

“No meu livro póstumo ‘A composição do personagem’, há o cuidado de sistematizar o treinamento técnico exterior do comediante através de recursos físicos ligados ao trabalho vocal e corporal. Também em ‘A criação de um papel’, tive a oportunidade de aplicar meu método em comédia, drama e tragédia”, diz Stanislavski.

“Sim, e quantos não disseram que o seu método só se aplicaria ao teatro sério?... O conhecimento é tudo”, diz Brecht.

“O ator deve seguir ao abandono das forças instintivas para ampliar os limites da realidade”, reflete em voz alta o francês Antonin Artaud, com a inscrição Ator, encenador, poeta, dramaturgo (1896-1948). “O espetáculo deve salvar o homem. O ator como um atleta afetivo, através do sopro e da respiração, penetra o corpo do personagem, dando-lhe vida. O ator não deve temer o ridículo de assumir gestos patéticos, o grito é seu veículo mais expressivo. Através de sons inabituais e inumanos, nos aproximamos de estados emocionais elementares.” E, olhando para o homem primitivo à mesa, continua: “Na retomada do homem primitivo chego à essência teatral.”

“Teatro da Crueldade”, dizem juntos o inglês Peter Brook, Diretor de teatro e cinema (1925-), e o italiano Eugenio Barba, Diretor de teatro (1936-), ambos influenciados pela teoria de Artaud. A eles junta-se o americano Joseph Chaikin, Encenador e dramaturgo (1935-2003).
“O teatro é um encontro entre o ator e o espectador, assim como a transformação instantânea de um personagem noutro”, diz Chaikin.

“Aproveito os exercícios da biomecânica, mesmo os mais perigosos. O importante não é a execução do trabalho físico, mas as motivações e os impulsos que levam o corpo a reagir de determinada forma. Gritos e descontrole físicos não são criativos, pois não surgem da disciplina de pesquisa”, argumenta Eugenio Barba. Olhando para o Sr. Grotowski, acrescenta: “Admiro e utilizo a ideia do teatro pobre.”

“Gosto de suas ideias, Artaud!”, diz Peter Brook.

E continua Peter Brook: “Busco em minha pesquisa uma linguagem de sons e gritos que alcancem uma palavra-grito de impacto integrada ao movimento corporal.” Enquanto fala, olha para Artaud. “Você, Artaud, influenciou-me fortemente na utilização de cores expressivas em seus exercícios e espetáculos. Com isso, com elementos de violência e crueldade, busquei estabelecer novas relações entre ator-autor e público. Sempre busquei reformular os moldes verbais de meus atores, como, por exemplo, em inúmeras encenações shakespearianas, e em uma criação coletiva sobre a Guerra do Vietnã.”

“Ah, estudei e experimentei muito de vocês, Stan e Brecht”, finaliza Brook.

“Huumm, o ator pode ser um não-ator: um estudante, um operário, qualquer pessoa que queira desentorpecer o corpo alienado pelo cotidiano de uma sociedade capitalista. O ato de se ver em ação ou de interpretar o outro é próprio do ser humano. Através do sistema coringa, o ator mescla vários personagens, ora trabalhando a empatia stanislavskiana, ora quebrando a continuidade da ação, como no seu teatro épico, Brecht.”

Brecht olha para seu novo interlocutor, interessado.

“O Teatro do Oprimido chama o espectador à atividade cênica, tornando-o protagonista de um teatro que deve ser interpretado socialmente. Um teatro dialético. O ator retorna às origens quando torna seu espetáculo um ritual, onde o espectador-ator comunga com ele, o mesmo processo. Todos os seres humanos são atores, mas alguns profissionalizam-se”, diz o brasileiro Augusto Boal, inscrição Encenador, dramaturgo e ensaísta (1931-2009).

Enquanto a conversa na távola chega ao fim, o homem primitivo, travestido de xamã, dança mascarado ao redor da mesa.

terça-feira, 28 de julho de 2009

Conversas da Távola, parte 2



“Concordo com Meyerhold”, diz o inglês Edward Gordon Craig, com a inscrição Diretor e cenógrafo (1872-1967) na camisa preta que veste. “A emoção destrói o ator, a identificação gera confusão e erro. Proponho o ator como uma super-marionete, que através do movimento domina a emoção, tornando-se mais visual e menos sonoro, pois acredito ser a voz muito enfadonha.” E, olhando para o homem primitivo, diz-lhe sorrindo: “Uma marionete, símbolo da divindade.”

“Acho que o ator não deve se apoiar no transe hipnótico do naturalismo psicológico; o ator deve direcionar-se pelo que é cerebral e litúrgico. O público não deve ser envolvido emocionalmente”, argumenta o alemão Bertolt Brecht, com a inscrição Dramaturgo, poeta e encenador (1898-1956), também vestido de preto.

“Sim, com certeza! A plateia não deve ser envolvida emocionalmente!”, exclamam, com certa ansiedade, os Srs. Meyerhold e Gordon Craig.

“Continuando: proponho uma representação mais consciente do ator através do gestus, levando o público a entender a situação cênica de modo mais racional.”

“Como?”, perguntam os três senhores, Stanislavski, Meyerhold e Gordon Craig.

“Na encenação teatral, deverá ocorrer uma demonstração dos acontecimentos através do ator narrando e relatando os fatos, entre uma linguagem falada e cantada. Já a leitura cênica do personagem e da história deverá ser realizada com espanto e crítica pelo ator, antes de memorizar a história, podendo avaliar o desenrolar dos fatos.”

“Posso continuar?”, pergunta Brecht. Todos à mesa, os doze cavalheiros mais o homem primitivo, respondem que sim.

“O ator deve desenvolver uma interpretação expositiva, lúcida e didática, relatando ideias e opções de comportamento mais do que sentimentos. Um efeito de distanciamento, a partir do ator que deverá estudar seu personagem de forma mais científica, gerando no público um estranhamento para que o acompanhe, sem envolvimento emocional, mas de forma crítica: social e artística. O distanciamento no público só poderá ocorrer através do distanciamento responsável do ator por meio da observação de si próprio e reprodução de atitudes cênicas recorrendo a símbolos. Um ator com função de agente de transformação social e histórica.”

segunda-feira, 29 de junho de 2009

Conversas da Távola, parte 1


Sentados ao redor de uma távola redonda, dez respeitáveis homens de teatro conversam sobre o ofício ao qual dedicaram suas vidas. Além deles, ali está também o homem primitivo. A távola redonda encontra-se em um espaço dito cênico, em uma cidade localizada no espaço e no tempo da cronologia histórica, onde vivos e mortos têm a oportunidade de encontrar-se para um “bate-papo”.
A mesa não possui cabeceira. Portanto, os dez homens de teatro, mais o homem primitivo, conversam em uma perspectiva em que todos têm visão para todos.


O primeiro homem a falar, um russo chamado Constantin Stanislavski, tem a inscrição Ator, encenador e teórico teatral (1863-1938) estampada em branco na camisa preta que veste.


“A criatividade do ator deve ser estimulada por uma série de motivações técnicas que despertem conscientemente o inconsciente para uma criação superorgânica, superconsciente. Deve-se estimular o trabalho do ator sobre si mesmo e o trabalho do ator sobre o personagem.”


Um segundo homem, também russo, chamado Vsévolod Meyerhold, com a inscrição Ator, encenador e teórico teatral (1874-1942) estampada em uma camisa preta, responde-lhe: “Stan, ator é movimento. Rejeito psicologismo e realismo sociológico.”


“Mas, Meyerhold! O ator deve reconstruir minuciosamente a psicologia do personagem. O ator deverá, diariamente, exercitar-se na prática da observação de si próprio e do outro, como seres humanos que são, para como personagem colocar-se em situação d...”


O homem primitivo, nu e sem qualquer inscrição, pergunta pensativo: “Ator religioso?”


“...colocar-se em situação de a fim de alcançar uma realidade cênica mesmo que tenha de recorrer ao externo e aos meios físicos para alcançar a verdade interior do personagem. A fé cênica”, continua o Sr. Stanislavski, exaltado em sua observação.


“Ato religioso!”, pensa o homem primitivo em voz alta.


“Stan, Stan, Stan. A ação do ator deve ser mais teatral e menos humanizada. O movimento apresentado através da expressão corporal e da mímica é mais revelador do que palavras. O ator é como uma marionete que dança, canta, faz acrobacias e (nunca) esquece que está representando frente ao público.”


“Essência?”, pergunta o homem primitivo. Meyerhold lhe sorri, enquanto olha para Stanislavski com ar vitorioso.


“Destruir a quarta parede que há entre o ator e o público?”, pergunta Stanislavski. “E a concentração do ator em cena? Uma vez vi o ator italiano Tommaso Salvini interpretando ‘Otelo’, de William Shakespeare, o que marcou-me profundamente. Ouvi dele, certa vez, que o ator deve trabalhar uma total desconcentração muscular nos ensaios e antes de entrar em cena; e uma concentração da atenção quando estiver no palco e nos ensaios. Desconcentração muscular e concentração mental.”

domingo, 7 de junho de 2009

De taturanas pretas, vermelhas e verdes... ou Como Sofia descobriu o teatro, parte 6

Duvidais sempre? perguntou Sofia.
E como se a pergunta que acabava de fazer fosse uma senha, retornaram as três, Sofia e as taturanas, ao local de origem.
Já era noite na chácara. Após o retorno, as duas taturanas olharam fixamente para a gatinha.
O olhar das duas lagartas transmitia ao mesmo tempo felicidade e medo. O exterior delas modificava, acrescentando às suas silhuetas um par de asas para cada uma. Antes mesmo que conseguissem despedir-se de Sofia, saíram voando como duas borboletas; na verdade, duas mariposas, uma marrom e outra amarela.

Sofia continuava ali, observando o voo das mariposas.

Fim

Pintura: Monet

segunda-feira, 1 de junho de 2009

De taturanas pretas, vermelhas e verdes... ou Como Sofia descobriu o teatro, parte 5


... “Acho que o maior conflito para o ator que está iniciando no teatro é o como interpretar
dignamente uma personagem. Será identificando-se ao máximo com a personagem através do
subconsciente, podendo com isso criar um vínculo com o público? Ou distanciando-se, analisando a personagem de modo mais científico? Ou trabalhando o físico e esgotando-se a ponto de
transmutar-se inconscientemente com o que existe de mais humano, nossos modelos de pensamento e os signos à nossa volta?

Preciso estudar Constantin Stanislavski, Bertolt Brecht e, um dia, o teatro físico de Jerzy Grotowski, entre outros... Peter Brook... vou estudar a vida inteira. Gosto muito disso.”
Sofia, o teatro não se realiza sem a presença física do ator. Enquanto não é encenado para
um público, não existe como tal; refletiu a taturana mais tímida.


“Teatro é ação”; refletia o pensamento sobre si mesmo de Priscilla.


“Existem muitos modos de produção em teatro. Profissional, amador, experimental,
tradicional, comercial, teatro para o povo ou um público elitista, teatro infantil e adulto. Participei
de algumas montagens de final de curso e já ensaiei em dois grupos amadores de teatro. Uma vez, um professor atentou-me à importância dos ensaios. É repetindo, experimentando, errando que nos aproximamos do tema da peça e da personagem, questionando as ações humanas.”


“Existem muitos fazeres teatrais e muitos públicos. Na praça Roosevelt, em São Paulo, o
público é formado por muitos atores, é praticamente uma metalinguagem de si mesmo. Em teatros de shopping, o público geralmente procura entretenimento. Existem os Teatros Municipais, o teatro do Centro de Convivência; teatros universitários, teatros de pesquisa.”
“Desconfio que o melhor crítico de uma peça é o público. O teatro é realizado para o grande
personagem principal: o espectador. Transforma atores, encenadores e público através da reflexão do ser humano como ser social.”


“Cabe ao encenador o questionamento e ao ator a realização da reflexão proposta. A
investigação, o repertório adquirido durante a vida e o estudo serão sempre o melhor caminho para o ator não se perder na vaidade, ingenuidade e seguimento cego de encenadores ou propostas vazias.


Duvidais sempre?”

terça-feira, 19 de maio de 2009

De taturanas pretas, vermelhas e verdes... ou Como Sofia descobriu o teatro, parte 4

... “A primeira vez que participei de uma peça de teatro foi em um bosque na Unicamp. Era um
teatro de máscaras, tivemos que confeccionar e criar os personagens a partir das mesmas. Interpretei um ser da floresta, o rato Uin. Que prazer! Alguns anos depois, participando de uma pequena montagem para um festival de teatro, no ensaio de uma cena de “Álbum de Família”, de Nelson Rodrigues, percebi o jogo entre mim e meu parceiro de cena, o momento em que cada um comandava. Dessa vez, o prazer converteu-se em paixão, foi uma sensação semelhante à do
primeiro beijo.”
Primeiro beijo, hihihihi; riu-se Sofia.

“O que é teatro? Algumas vezes, parece-me uma pergunta sem resposta definida.
Etimologicamente vem do verbo grego “theastai” (ver, contemplar, olhar). O teatro faz-se com o
ator/palco, com o público/plateia e com o espaço, com a cumplicidade entre o público e os atores.
Os espaços teatrais podem ser o palco italiano, palco elisabetano (de Shakespeare), uma praça, um barco no rio Tietê, um galpão, um ônibus. Lembro-me de uma montagem a que assisti no Festival de Teatro de Curitiba de 1998; a peça iniciava-se em um ônibus com as janelas cobertas por um plástico preto, a tensão já ocorria ali na ignorância do destino para onde se era levado. O espaço compõe-se às vezes como uma extensão do corpo do ator, através de um movimento que propõe ritmos e investiga o próprio espaço.”

“Ando descobrindo que o teatro é o meio de investigação para o conhecimento do homem
como ser social, fruto de uma época e dos arquétipos que transformam-se com os seres humanos através do tempo. Às vezes parte-se de uma personagem para desnudar o coletivo. Os atores
precisam exercitar o corpo como instrumento de trabalho: respiração, voz, gestos; sensibilidade e inteligência, observação e estudo.”
Sofia, vocês gatos são uma lição de alongamento e consciência do próprio peso e movimento. Os atores devem observá-los muitas vezes; refletiu a taturana das sobrancelhas grossas.

Voltemos às lembranças de Priscilla:
“Uma vez, eu, muito atrevida, dei aula de teatro em um assentamento em Sumaré utilizando
as técnicas do Teatro do Oprimido, de Augusto Boal. Será que fui irresponsável por não ser uma
profissional de teatro? Sinceramente não sei. Dez anos depois, encontrei-me com uma amiga e,
relembrando aquele tempo, ela contou-me conhecer uma menina que se tornou enfermeira e que não esquecia um breve curso de teatro de que participou no assentamento. Lembro-me de Marta como uma garota muito inteligente que eu imaginava vir a ser atriz no futuro.
Eu, que naquele tempo sentia-me tão perdida em relação a mim mesma, ajudei alguém a se encontrar. Adoro quando Boal diz que todos somos atores, a diferença é que alguns se profissionalizam.”