domingo, 7 de junho de 2009

De taturanas pretas, vermelhas e verdes... ou Como Sofia descobriu o teatro, parte 6

Duvidais sempre? perguntou Sofia.
E como se a pergunta que acabava de fazer fosse uma senha, retornaram as três, Sofia e as taturanas, ao local de origem.
Já era noite na chácara. Após o retorno, as duas taturanas olharam fixamente para a gatinha.
O olhar das duas lagartas transmitia ao mesmo tempo felicidade e medo. O exterior delas modificava, acrescentando às suas silhuetas um par de asas para cada uma. Antes mesmo que conseguissem despedir-se de Sofia, saíram voando como duas borboletas; na verdade, duas mariposas, uma marrom e outra amarela.

Sofia continuava ali, observando o voo das mariposas.

Fim

Pintura: Monet

segunda-feira, 1 de junho de 2009

De taturanas pretas, vermelhas e verdes... ou Como Sofia descobriu o teatro, parte 5


... “Acho que o maior conflito para o ator que está iniciando no teatro é o como interpretar
dignamente uma personagem. Será identificando-se ao máximo com a personagem através do
subconsciente, podendo com isso criar um vínculo com o público? Ou distanciando-se, analisando a personagem de modo mais científico? Ou trabalhando o físico e esgotando-se a ponto de
transmutar-se inconscientemente com o que existe de mais humano, nossos modelos de pensamento e os signos à nossa volta?

Preciso estudar Constantin Stanislavski, Bertolt Brecht e, um dia, o teatro físico de Jerzy Grotowski, entre outros... Peter Brook... vou estudar a vida inteira. Gosto muito disso.”
Sofia, o teatro não se realiza sem a presença física do ator. Enquanto não é encenado para
um público, não existe como tal; refletiu a taturana mais tímida.


“Teatro é ação”; refletia o pensamento sobre si mesmo de Priscilla.


“Existem muitos modos de produção em teatro. Profissional, amador, experimental,
tradicional, comercial, teatro para o povo ou um público elitista, teatro infantil e adulto. Participei
de algumas montagens de final de curso e já ensaiei em dois grupos amadores de teatro. Uma vez, um professor atentou-me à importância dos ensaios. É repetindo, experimentando, errando que nos aproximamos do tema da peça e da personagem, questionando as ações humanas.”


“Existem muitos fazeres teatrais e muitos públicos. Na praça Roosevelt, em São Paulo, o
público é formado por muitos atores, é praticamente uma metalinguagem de si mesmo. Em teatros de shopping, o público geralmente procura entretenimento. Existem os Teatros Municipais, o teatro do Centro de Convivência; teatros universitários, teatros de pesquisa.”
“Desconfio que o melhor crítico de uma peça é o público. O teatro é realizado para o grande
personagem principal: o espectador. Transforma atores, encenadores e público através da reflexão do ser humano como ser social.”


“Cabe ao encenador o questionamento e ao ator a realização da reflexão proposta. A
investigação, o repertório adquirido durante a vida e o estudo serão sempre o melhor caminho para o ator não se perder na vaidade, ingenuidade e seguimento cego de encenadores ou propostas vazias.


Duvidais sempre?”

terça-feira, 19 de maio de 2009

De taturanas pretas, vermelhas e verdes... ou Como Sofia descobriu o teatro, parte 4

... “A primeira vez que participei de uma peça de teatro foi em um bosque na Unicamp. Era um
teatro de máscaras, tivemos que confeccionar e criar os personagens a partir das mesmas. Interpretei um ser da floresta, o rato Uin. Que prazer! Alguns anos depois, participando de uma pequena montagem para um festival de teatro, no ensaio de uma cena de “Álbum de Família”, de Nelson Rodrigues, percebi o jogo entre mim e meu parceiro de cena, o momento em que cada um comandava. Dessa vez, o prazer converteu-se em paixão, foi uma sensação semelhante à do
primeiro beijo.”
Primeiro beijo, hihihihi; riu-se Sofia.

“O que é teatro? Algumas vezes, parece-me uma pergunta sem resposta definida.
Etimologicamente vem do verbo grego “theastai” (ver, contemplar, olhar). O teatro faz-se com o
ator/palco, com o público/plateia e com o espaço, com a cumplicidade entre o público e os atores.
Os espaços teatrais podem ser o palco italiano, palco elisabetano (de Shakespeare), uma praça, um barco no rio Tietê, um galpão, um ônibus. Lembro-me de uma montagem a que assisti no Festival de Teatro de Curitiba de 1998; a peça iniciava-se em um ônibus com as janelas cobertas por um plástico preto, a tensão já ocorria ali na ignorância do destino para onde se era levado. O espaço compõe-se às vezes como uma extensão do corpo do ator, através de um movimento que propõe ritmos e investiga o próprio espaço.”

“Ando descobrindo que o teatro é o meio de investigação para o conhecimento do homem
como ser social, fruto de uma época e dos arquétipos que transformam-se com os seres humanos através do tempo. Às vezes parte-se de uma personagem para desnudar o coletivo. Os atores
precisam exercitar o corpo como instrumento de trabalho: respiração, voz, gestos; sensibilidade e inteligência, observação e estudo.”
Sofia, vocês gatos são uma lição de alongamento e consciência do próprio peso e movimento. Os atores devem observá-los muitas vezes; refletiu a taturana das sobrancelhas grossas.

Voltemos às lembranças de Priscilla:
“Uma vez, eu, muito atrevida, dei aula de teatro em um assentamento em Sumaré utilizando
as técnicas do Teatro do Oprimido, de Augusto Boal. Será que fui irresponsável por não ser uma
profissional de teatro? Sinceramente não sei. Dez anos depois, encontrei-me com uma amiga e,
relembrando aquele tempo, ela contou-me conhecer uma menina que se tornou enfermeira e que não esquecia um breve curso de teatro de que participou no assentamento. Lembro-me de Marta como uma garota muito inteligente que eu imaginava vir a ser atriz no futuro.
Eu, que naquele tempo sentia-me tão perdida em relação a mim mesma, ajudei alguém a se encontrar. Adoro quando Boal diz que todos somos atores, a diferença é que alguns se profissionalizam.”

segunda-feira, 11 de maio de 2009

De taturanas pretas, vermelhas e verdes... ou Como Sofia descobriu o teatro, parte 3


... Amassando com as patinhas um pequeníssimo pedaço da folha de uma planta, a taturana que
falava menos ofereceu-o a Sofia. Tome, esta é uma pílula do conhecimento.


Não liga não, ela é viciada no filme Matrix; comentou a taturana das sobrancelhas grossas.
O quê?
Depois explico. Agora o momento é do teatro.
As taturanas entreolhavam-se. E aí, vamos levá-la à Grécia Antiga?
Não, acho que não é necessário. Vamos levá-la a um lugar mais próximo... à mente da filha
de seus donos, que anda brincando com o fazer teatral; definiu a taturana das sobrancelhas.
Ah, a Cilla? Anda sumida. Será que morreu? Vocês vão comigo? perguntou Sofia.
Sofia, se nós vamos te levar para dentro da memória e dos questionamentos de Priscilla, é
porque ela está viva.
Será que vamos com Sofia? riam-se as taturanas.


Ah, vamos!! … E as três tomaram a um só tempo uma pílula cada uma.
Através de uma espécie de grande cubo mágico, Sofia e as duas taturanas viajaram até o
consciente e subconsciente de Priscilla.
“Na imitação posso ser o outro; quando eu tinha 16 anos adorava mudar de aparência, às
vezes eu usava um cabelo bem curtinho, às vezes longo, boina e botas, outras vezes vestidos:
aparência tímida, bermudas e camiseta: confiante. Uma trilha sonora embalava cada personagem que eu criava para mim mesma. É no jogo e na imitação do outro que posso revelar-me. O homem primitivo já imitava os animais que iria caçar para o melhor desempenho da caçada. No brincar com deuses e fenômenos naturais, traduz-se a transcendência humana.”


Nossa, onde estamos? indagava Sofia.
Na mente da filha da sua dona, respondeu uma das taturanas.


Ah... Eu não preciso imitar nenhum rato para caçá-lo, só preciso observar, ficar atenta e
esperar o momento certo para dar o bote; vangloriava-se Sofia.


O princípio da imitação é a observação; disse a taturana das sobrancelhas.


terça-feira, 5 de maio de 2009

De taturanas pretas, vermelhas e verdes... ou Como Sofia descobriu o teatro, parte 2

... Um dia, brincando de esconde-esconde pela chácara com seu irmãozinho Fellini, queimou se
abruptamente num momento em que estava distante do irmão.
Ai!! O que é isso?
E, olhando para baixo, encontrou duas taturanas verdes, uma das quais respondeu-lhe:
É conflito!
Conflito? indagou a gatinha.
Sim, conflito do toque, do relacionamento com o que é diferente; respondeu uma das
taturanas, muito engraçada de rosto, com grandes sobrancelhas grossas e juntas.
Por quase um minuto Sofia ficou parada olhando para elas.
Nunca tinha visto taturanas verdes, vocês são bonitas. Conheci as taturanas pretas e as
vermelhas, mas sumiram. Vocês duas costumam brincar com o quê?
Observamos; riam-se as duas.
O quê? Como? Por quê? indagou a gatinha, não obtendo resposta das duas taturanas que a
observavam.
Sofia, você anda questionando-se sobre o que deseja, sobre como jogar, sobre o porquê de
tantas perguntas?
Sim, como vocês sabem?
Riam-se as taturanas. Ai, ai, ela está com a Síndrome do Humano. Quantas questões! ria-se a
taturana de sobrancelhas grossas e mais tagarela.
É a má influência dos humanos. Gatos, cachorros, alguns papagaios, tartarugas, canários e
até iguanas andam sofrendo deste mal; condoía-se a taturana mais tímida.
O que caracteriza os humanos é saberem-se mortais; refletiu a taturana de sobrancelhas
grossas, a mais falante.
O que é mortal? perguntou Sofia.
É o que morre; respondeu a taturana de grossas sobrancelhas.
O que é morrer? perguntou novamente Sofia.
Para nós, não humanos, é quando alguém de que gostamos desaparece sem despedidas;
respondeu novamente a taturana de sobrancelhas grossas.
Ah, as minhas amigas taturanas pretas e vermelhas sumiram sem aviso.
Por segundos, as taturanas entreolharam-se. Sofia, o que você necessita agora é de uma boa
dose de conhecimento do humano, e o melhor meio é através do teatro.
Teatro?
Sim, Sofia. É a brincadeira, é o jogo, é o fingir-se.
Adoro brincar!!!

segunda-feira, 4 de maio de 2009

Feliz Aniversário Thais!!!



Amo muito minha mãe e somos muito amigas.

Mas confesso que quando eu era criança imaginava que a minha tia Thais fosse a minha outra mãe, talvez pela semelhança física e de personalidade. A referência que eu, criança, tenho dela, é de uma rebeldia consciente e disponibilidade para viver a vida.
Sempre admirei muito sua facilidade de comunicação e de criar novos amigos.

Adoro quando o trio de comadres: minha mãe, eu e Thais, encontra-se na chácara: é só café, conversas e risadas até alta madrugada.

Um momento de viver a vida a ser recortado... pendurado na parede.

segunda-feira, 27 de abril de 2009

De taturanas pretas, vermelhas e verdes... ou Como Sofia descobriu o teatro, parte 1


A rotina de sua vida consistia em brincar, dormir, caçar, fazer gracinhas para os donos e, nos
últimos tempos... pensar. Encontrava-se na idade de um ano e meio, o equivalente mais ou menos aos 17 anos dos humanos. Uma fase de porquês, de autodescoberta através dos amigos.
Assim encontrava-se Sofia, uma gatinha meio siamesa, meio rajada cinza claro.
No quintal da chácara onde morava, já havia se relacionado com um grupo de taturanas pretas, de uma religiosidade radical, conservadoras ao extremo; por um tempo, transmutou-se em taturanas pretas, mas acabou afastando-se, cansada de todo aquele extremismo, e também porque partiram sem se despedir.
Logo depois, Sofia aproximou-se do grupo das taturanas vermelhas, alegres, com ares de vanguarda, sempre dançando, cantando embriagadas do suco de uva que induziam Sofia a pegar “emprestado” dos donos; mas a gatinha cansou-se das taturanas vermelhas, que também partiram sem despedidas.
Na procura por conhecer-se através das relações de amizade, Sofia não conseguia criar um
vínculo que a permitisse identificar seus anseios e sua essência. E, no distanciamento das partidas, não conseguia criar uma consciência de si mesma.