segunda-feira, 11 de maio de 2009

De taturanas pretas, vermelhas e verdes... ou Como Sofia descobriu o teatro, parte 3


... Amassando com as patinhas um pequeníssimo pedaço da folha de uma planta, a taturana que
falava menos ofereceu-o a Sofia. Tome, esta é uma pílula do conhecimento.


Não liga não, ela é viciada no filme Matrix; comentou a taturana das sobrancelhas grossas.
O quê?
Depois explico. Agora o momento é do teatro.
As taturanas entreolhavam-se. E aí, vamos levá-la à Grécia Antiga?
Não, acho que não é necessário. Vamos levá-la a um lugar mais próximo... à mente da filha
de seus donos, que anda brincando com o fazer teatral; definiu a taturana das sobrancelhas.
Ah, a Cilla? Anda sumida. Será que morreu? Vocês vão comigo? perguntou Sofia.
Sofia, se nós vamos te levar para dentro da memória e dos questionamentos de Priscilla, é
porque ela está viva.
Será que vamos com Sofia? riam-se as taturanas.


Ah, vamos!! … E as três tomaram a um só tempo uma pílula cada uma.
Através de uma espécie de grande cubo mágico, Sofia e as duas taturanas viajaram até o
consciente e subconsciente de Priscilla.
“Na imitação posso ser o outro; quando eu tinha 16 anos adorava mudar de aparência, às
vezes eu usava um cabelo bem curtinho, às vezes longo, boina e botas, outras vezes vestidos:
aparência tímida, bermudas e camiseta: confiante. Uma trilha sonora embalava cada personagem que eu criava para mim mesma. É no jogo e na imitação do outro que posso revelar-me. O homem primitivo já imitava os animais que iria caçar para o melhor desempenho da caçada. No brincar com deuses e fenômenos naturais, traduz-se a transcendência humana.”


Nossa, onde estamos? indagava Sofia.
Na mente da filha da sua dona, respondeu uma das taturanas.


Ah... Eu não preciso imitar nenhum rato para caçá-lo, só preciso observar, ficar atenta e
esperar o momento certo para dar o bote; vangloriava-se Sofia.


O princípio da imitação é a observação; disse a taturana das sobrancelhas.


terça-feira, 5 de maio de 2009

De taturanas pretas, vermelhas e verdes... ou Como Sofia descobriu o teatro, parte 2

... Um dia, brincando de esconde-esconde pela chácara com seu irmãozinho Fellini, queimou se
abruptamente num momento em que estava distante do irmão.
Ai!! O que é isso?
E, olhando para baixo, encontrou duas taturanas verdes, uma das quais respondeu-lhe:
É conflito!
Conflito? indagou a gatinha.
Sim, conflito do toque, do relacionamento com o que é diferente; respondeu uma das
taturanas, muito engraçada de rosto, com grandes sobrancelhas grossas e juntas.
Por quase um minuto Sofia ficou parada olhando para elas.
Nunca tinha visto taturanas verdes, vocês são bonitas. Conheci as taturanas pretas e as
vermelhas, mas sumiram. Vocês duas costumam brincar com o quê?
Observamos; riam-se as duas.
O quê? Como? Por quê? indagou a gatinha, não obtendo resposta das duas taturanas que a
observavam.
Sofia, você anda questionando-se sobre o que deseja, sobre como jogar, sobre o porquê de
tantas perguntas?
Sim, como vocês sabem?
Riam-se as taturanas. Ai, ai, ela está com a Síndrome do Humano. Quantas questões! ria-se a
taturana de sobrancelhas grossas e mais tagarela.
É a má influência dos humanos. Gatos, cachorros, alguns papagaios, tartarugas, canários e
até iguanas andam sofrendo deste mal; condoía-se a taturana mais tímida.
O que caracteriza os humanos é saberem-se mortais; refletiu a taturana de sobrancelhas
grossas, a mais falante.
O que é mortal? perguntou Sofia.
É o que morre; respondeu a taturana de grossas sobrancelhas.
O que é morrer? perguntou novamente Sofia.
Para nós, não humanos, é quando alguém de que gostamos desaparece sem despedidas;
respondeu novamente a taturana de sobrancelhas grossas.
Ah, as minhas amigas taturanas pretas e vermelhas sumiram sem aviso.
Por segundos, as taturanas entreolharam-se. Sofia, o que você necessita agora é de uma boa
dose de conhecimento do humano, e o melhor meio é através do teatro.
Teatro?
Sim, Sofia. É a brincadeira, é o jogo, é o fingir-se.
Adoro brincar!!!

segunda-feira, 4 de maio de 2009

Feliz Aniversário Thais!!!



Amo muito minha mãe e somos muito amigas.

Mas confesso que quando eu era criança imaginava que a minha tia Thais fosse a minha outra mãe, talvez pela semelhança física e de personalidade. A referência que eu, criança, tenho dela, é de uma rebeldia consciente e disponibilidade para viver a vida.
Sempre admirei muito sua facilidade de comunicação e de criar novos amigos.

Adoro quando o trio de comadres: minha mãe, eu e Thais, encontra-se na chácara: é só café, conversas e risadas até alta madrugada.

Um momento de viver a vida a ser recortado... pendurado na parede.

segunda-feira, 27 de abril de 2009

De taturanas pretas, vermelhas e verdes... ou Como Sofia descobriu o teatro, parte 1


A rotina de sua vida consistia em brincar, dormir, caçar, fazer gracinhas para os donos e, nos
últimos tempos... pensar. Encontrava-se na idade de um ano e meio, o equivalente mais ou menos aos 17 anos dos humanos. Uma fase de porquês, de autodescoberta através dos amigos.
Assim encontrava-se Sofia, uma gatinha meio siamesa, meio rajada cinza claro.
No quintal da chácara onde morava, já havia se relacionado com um grupo de taturanas pretas, de uma religiosidade radical, conservadoras ao extremo; por um tempo, transmutou-se em taturanas pretas, mas acabou afastando-se, cansada de todo aquele extremismo, e também porque partiram sem se despedir.
Logo depois, Sofia aproximou-se do grupo das taturanas vermelhas, alegres, com ares de vanguarda, sempre dançando, cantando embriagadas do suco de uva que induziam Sofia a pegar “emprestado” dos donos; mas a gatinha cansou-se das taturanas vermelhas, que também partiram sem despedidas.
Na procura por conhecer-se através das relações de amizade, Sofia não conseguia criar um
vínculo que a permitisse identificar seus anseios e sua essência. E, no distanciamento das partidas, não conseguia criar uma consciência de si mesma.

sábado, 25 de abril de 2009

Reinvenção





Reinvenção, de Cecília Meireles


A vida só é possível reinventada.
Anda o sol pelas campinas e passeia a mão dourada pelas águas,

pelas folhas...

Ah! tudo bolhas

que vem de fundas piscinas de ilusionismo... — mais nada.
Mas a vida, a vida, a vida, a vida só é possível reinventada.


Vem a lua, vem, retira as algemas dos meus braços.

Projeto-me por espaços cheios da tua Figura.

Tudo mentira! Mentira da lua, na noite escura.
Não te encontro, não te alcanço...

Só — no tempo equilibrada, desprendo-me do balanço que além do tempo me leva.

Só — na treva, fico: recebida e dada.
Porque a vida, a vida, a vida, a vida só é possível reinventada.


domingo, 19 de abril de 2009

Já chorei com Tarsila


Assim como o Raul Seixas, já tive meu Baú da Cilla.
Inicialmente foi uma gaveta de armário, depois transformou-se em uma cesta de vime. Hoje é meu blog: onde reconstituo minhas memórias, simulacro minha persona e entendo meu "eu".

segunda-feira, 13 de abril de 2009

A estória de Raul Seixas Amaral - Raulzito, parte 2


Enquanto pedalava, o coração batia desgovernado, não pelo exercício físico, mas muito mais pela emoção de estar pedalando com o pai - momentos raros - rumo à casa de sua tia. O propósito da viagem era ver uma ninhada de gatinhos e quem sabe escolher um deles.

O primeiro encontro

Uma gata, Dona Mimi, deitada em forma de U, cinco ou seis gatinhos, às vezes mamando, outras vezes passando, rolando, um em cima do outro, na disputa pelo melhor leitinho. O áudio é de um ronronar. Eram... dois gatinhos pretos, dois rajados e dois siamesinhos: um cabeçudinho e forte e o outro, magrinho e fraquinho.

Quando ela, garota de 16 anos, aproximou os dedos encantados sentido aos gatinhos, o siamês cabeçudinho abraçou o irmão siamês fraquinho e bufou para ela protegendo o irmão.

A garota tímida, ameaçada por aquele bebê gato, escolheu justamente o próprio - o cabeçudinho - para levar consigo. Houve o tempo de espera: uma semana. Durante este tempo, o siamês fraquinho faleceu. E, em um sábado de 1993, o gato cabeçudinho chegava à casa da garota, sendo batizado Raul Seixas Amaral, vulgo Raulzito, também conhecido como cabeça de cebola.


Um quadro na memória - Na passagem do ano de 1993 para 1994
Feliz, ela arrumava as malas para ir passar o Ano Novo na casa dos avós em Taubaté. À noite, tudo estava pronto e era só levar as malas para o carro, mas alguém mais "esperto", antes que pudessem colocar as malas, bateu feio no carro de seu pai: por sorte não feriu ninguém, mas impediu que viajassem.

Ela ficou muito triste, de uma tristeza maior e mais profunda do que o fato da batida do carro poderia gerar. Era como se um de seus sentidos, que não a visão, não a audição, não o olfato, nem tampouco o tato, pudessem lhe trazer certa informação. Aquele seria o último Ano Novo, ano bom, ano de saúde de seu avô: aquele homem bacana que chorou quando ela nasceu, quando ela, nenê humano, recém-nascida, agarrou o seu dedo dizendo na língua dos bebês: - Oi, e aí cara!! Maneiro!!!


Em 1995 faleceu seu avô materno.


...


Pensando estar sozinha, chorando em seu quarto, ela olha para a porta e dois olhos azuis, vesgos e interrogativos a encaravam. O diálogo olho-a-olho deve ter durado uns 20 minutos, finalizando-se no colo da garota. Foi a primeira conversa longa, de amigos, que teve com Raulzito.
Hoje, 2009. Raulzito tem a mesma idade da garota tímida, 16 anos. Ao contrário de um jovem humano de 16 anos, os olhos azuis do pequeno cabeçudo estão ainda vivos de alma, porém envelhecidos de físico. A mãe da garota jura que o Sr. Cabeça de Cebola anda um pouco caduco e todos tomam muito cuidado ao pegá-lo para não machucar seus vividos ossos. Dos cinco irmãos gatos de Larama, Raulzito, o mais velho, é de longe o mais traquinas.

Em 2007 faleceu de morte natural Dona Mimi, mãe do pequeno Raul. Ao lembrar da respeitável senhora felina, a garota que hoje é uma mulher agradece àquela barriguinha peluda que criou seu amigo.

Em 1994, Raulzito, filho único, necessitava de um irmãozinho. É quando chega Lepapa...